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O urbano tem sido objeto de interesse por
parte dos geógrafos desde, pelo menos, os
primeiros anos do século XX, consoante as
profundas transformações, em curso, verificadas
tanto no espaço urbano quanto na rede urbana.
Tratava-se de registrar e interpretar aqueles
impactos que o capitalismo industrial produziu
nas velhas cidades européias e nas novas
cidades americanas. O interesse foi crescente e
marcado, como em outras áreas de interesse por
parte dos geógrafos, pela adoção de muitas
matrizes teórico-metodológicas que caracte-
rizaram a geografia e as ciências sociais em
geral. Uma perspectiva determinista foi incor-
porada aos estudos da cidade. A influência da
Escola de Chicago, de Robert Park, foi, e ainda
é, muito grande. Um viés calcado no positi-
vismo lógico, com seus modelos hipotético-
dedutivos, marcou os estudos geográficos sobre
o urbano. A análise crítica, fundada nas semi-
nais contribuições de Henri Lefébvre, iria
ampliar o interesse dos geógrafos sobre o
urbano: os trabalhos de David Harvey e
Edward Soja são expressões de grande cali-
bre dessa influência.

Recentemente ainda, a partir de meados dos
anos 70, os geógrafos incorporaram, em suas
análises sobre o urbano, uma perspectiva que
inclui as práticas socioespaciais e seus
significados, envolvendo crenças, valores e
intersubjetividades diversas, admitindo a coe-
xistência de múltiplas espacialidades cons-
1 ruídas, percebidas e vivenciadas por uma
sllCÍl'dadc gue é fragmentada, estando longe de

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nas tradições locais. Depois das jornadas revolucionárias, a
França foi dividida em 83 departamentos, subdivididos em dis-
tritos, cantões e comunas, e cada uma destas divisões detinha
poderes específicos. Uma assembléia deliberativa, para os
departamentos, distritos e cantões. um diretório, que conespon-
dia ao poder executivo para os departamentos e o distrito, e um
corpo municipal e o prefeito, para as comunas. Como podemos
constatar, o primeiro esforço revolucionário foi o de criar uma
descentralização do poder, ainda que este obedecesse a normas
estritamente uniformes. A ameaça da contra-revolução, no
entanto, levou a uma nova concentração do poder nas mãos do
Comitê de Salvação Pública, que adotou, como uma de suas pri-
meiras medidas, enviar representantes diretos, com plenos
poderes, para cada distrito e impôs em cada comuna um funcio-
nário nomeado por esse comitê. Essas medidas de centralização
ficaram conhecidas como jacobinas, sinônimo desde então para
essa presença forte e interveniente do Estado nos locais. Essa
centralização foi também pensada como extensão de uma rede
de isonomia organizada. É isso que revela o esforço de promul-
gar um código civil único (adotado por Napoleão Bonaparte em
1804 e depois largamente utilizado como modelo por vários
outros países) ou a preocupação com a instrução pública, que
previa pelo menos uma escola por cantão.

O outro dado fundamental na relação entre essa cidadania
moderna e o espaço foi a invenção de um regime de represen-
tação. Esta modalidade surgiu na Revolução Americana, que
criou a democracia representativa. Alguns anos depois a
Assembléia criada pela Revolução Francesa também decidiu
por um regime representativo. Isso significa que há, na base da
cidadania moderna, um recorte espacial, hierarquizado, verda-
deiro limite de poderes, políticas e competências. Essa repre-
sentação pelo espaço, ou para utilizar um vocabulário geográ-
fico, essa classificação das coisas por área é uma negação da
representação estritamente por estatuto social, como a que

1 ~o A

ainda era praticada às vésperas da Revolução de 1789, na con-
vocação dos Três Estados, por exemplo. É lógico que esta clas-
sificação territorial convivia, ainda nos primeiros tempos da
democracia moderna, com outros tipos de classificação, como
a discriminação entre cidadãos ativos e passivos (em função do
sexo, da idade, da renda, do estatuto ou não de homem livre
etc.), aos primeiros cabendo a responsabilidade de organizar e
decidir o direito e deveres dos demais, os passivos. Grada-
tivamente, no entanto, a tendência foi a de afirmação de uma
distinção do eleitorado exclusivamente em termos de circuns-
crições territoriais.

A democracia representativa se desenvolveu a partir de
diversas instituições, eleições, parlamentos, partidos etc., mas
todas elas seguem uma grade fundamental que estabelece uma
divisão espac ial e uma hierarquia fundada nessa delimitação.
A importância dessa condição de delimitação espacial na
organização da vida democrática é decisiva, sendo lamentável
que ela nem sempre seja parte integrante das análises políti-
cas. Assim, muitas vezes a democracia é concebida como uma
simples medida aritmética de votos, como o domínio da maio-
ria. O que esquecemos nesse tipo de raciocínio é que essa
maioria é sempre relativa a um espaço, e todo resultado
depende antes da forma e da hierarquia como a representação
está estabelecida nesse espaço.

Três tipos de crítica surgiram desde o final do século XVIII
e tiveram enorme importância no processo de desenvolvimen-
to da cidadania moderna. A primeira pode ser identif icada
como uma crítica contra-revolucionária, bem representada
pelo personagem de Edmund Burke. Ele parte da recusa da
idéia de um cidadão abstrato, em qualquer lugar o mesmo, dis-
pondo dos mesmos direitos e deveres. Burke, a partir da refle-
xão de Hume sobre a importância dos costumes e das tradi-
ções, em contraposição ao esquema teórico que parte do esta-
do de natureza na teoria do contrato, afirma também que a
idéia de liberdade nasce de uma tradição particular, ou seja, é

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relativa a cada povo. Não há então direitos gerais derivados de
uma racionalidade pura.

Outra grande corrente crítica à idéia de democracia moder-
na é desenvolvida pelo movimento romântico. Não nos alonga-

r:mos nos comentários sobre essa corrente, pois a apresenta-
çao do Romantismo já foi feita em outra op01tunidade; é preci-
so apenas guardar a idéia de que esse movimento concebe 0
espaço como um conjunto de unidades preestabelecidas pela
história e pela geografia; o homem em geral não existe, e ele se

define antes pelas culturas nas quais está inserido. O raciocínio
d~ que há direitos e deveres relativos a um homem em geral é
vtsto antes como uma imposição dos valores da cultura euro-
péia ocidental sobre culturas que são estranhas ao racionalis-

n:o, portanto traduzi~do-se pois de fato, segundo esta concep-
çao, em uma verdadeira agressão.

. A terceira grande crítica, a mais importante, veio do socia-
ltsm? e. do marxismo.206 Partia do princípio de que a igualdade
de. dtrettos da democracia burguesa não tem nenhum compro-

:ntsso ~om u~a verd~deira igualdade social. A revolução
mdustnal recnou e redtmensionou diferenças sociais entre as
classes, que de fato não são consideradas na abordagem clássi-
ca da economia política. O direito à propriedade, por exemplo,
q.ue ~~ura na Declaração dos direitos do homem e do cidadão,
stgmftca, segundo essa perspectiva, na prática, o direito de

a~guns de se beneficiarem de uma fortuna, por meio da explora-
çao daqueles que não a possuem. Entre a democracia de direito

burguesa, e a democracia real existe portanto uma diferenç~
fundamental, que é a necessária condição de igualdade social.

Os movi_mentos sociais explodiram na Europa na primeira
metade do seculo XIX, culminando com a sucessão de revolu-
ções no ano de 1848, que em grande parte retomavam essas
constatações e exigiam do Estado uma ação efetiva no sentido

206
A expressão "socialismo" foi criada por Pierre Leroux em 1832 J·usta t , _ , , men e para

se contrapor a concepçao política dita individualista.

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de promover uma verdadeira igualdade e justiça social. Lu-
lava-se pela noção de direitos credores, aqueles que deveriam
ser assegurados para que a liberdade pudesse ser efetivamente

exercida. As composições políticas saídas desse tumultuado
momento revolucionário reconhecem, em sua maior parte, a
responsabilidade do Estado em fornecer as condições mínimas,
abrigo, educação, alimentação, segurança etc., para que a cida-
dania possa ser exercida por todos em igualdade de condições.
É o Estado-nação, raiz do Estado do bem estar social, que nasce
dessas reivindicações e com ele um novo valor se agrega à idéia
de justiça social, a solidariedade.207 O Estado é também uma
nação, um corpo coeso de pessoas, solidárias em face de um

destino comum vivido dentro dos limites de comunidades polí-
ticas que são em grande parte narradas como comunidades his-

tóricas.208 As fronteiras entre esses Estados passam a ser vistas
como limites definitivos de toda a diferenciação. É nesse perío-
do que as escolas nacionais, na arte, na ciência, na cultura em
geral, impõem-se e são tomadas como recortes naturais e essen-
ciais em todos os campos da vida social.

A segunda metade do século XIX e o primeiro quarto do
XX também foi um período de grandes transformações na

forma da cidade. Intervenções cirúrgicas são feitas em grandes
cidades, Paris, Bruxelas, Milão, Viena, Berlim, Madri, Atenas

etc., novos meios de transporte se desenvolvem, e os serviços
urbanos, gás, eletricidade, saneamento básico, água etc . se
estruturam em verdadeiras redes subterrâneas. Choay identifi-
ca nesse período duas principais correntes do urbanismo: o
progressismo e o culturalismo.209

207 Só depois de 1848, a palavra "fraternidade" foi incorporada à divisa Liberdade e
Igualdade sobre as fachadas dos edifícios públicos franceses.
208 Por isso, nossa discordância em relação ao argumento que quer criar um paralelis-
mo absoluto entre o desenvolvimento da cidadania e o da nacionalidade, vistos como
pares indissociáveis: "a cidadania como subconjunto da nacionalidade", expressão que
aparece, por exemplo, em Constant, Fred. La citoyenneté, Montchrestien, Paris, !998.
209 Há também uma terceira corrente, o naturalismo, que se desenvolverá mais tarde,
sobretudo nos EUA. Choay, F. L'urbanisme, utopies et réalités, Seuil, Paris, 1965.

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uma homogeneidade sociocultural. Neste
sentido a unidade da cidade fragmenta-se por
intermédio de práticas socioespaciais diferen-
ciadas. Esta perspectiva amplia o escopo da
geo_grafia urbana.

E esta a perspectiva contida no livro
A Condição Urbana: Ensaios de Geopolítica da
Cidade, de Paulo César da Costa Gomes,
geógrafo que já nos brindou com seu excelente
Geografia e Modernidade, também publicado
pela Bertrand Brasil. A contribuição do autor,
alicerçada na reflexão teórica e em trabalhos
empíricos, reside na distinção, no espaço
urbano, de dois tipos fundamentais de espaços,
que, entretanto, não se excluem. Trata-se do
nomoespaço e do genoespaço, os quais não eli-
minam outras categorias espaciais, construídas
segundo outras perspectivas teórico-metodo-
lógicas, como distrito central de negócios,
periferia urbana e áreas sociais. A contribuição
do autor, ao contrário, soma-se a estas tradi-
cionais categorias, enriquecendo a visão geográ-
fica da cidade.

Os genoespaços são privilegiados na exempli-
ficação, pois são as práticas sociais não regidas
por normas, regras e leis, que a geografia precisa
aprofundar, oferecendo a sua particular contri-
buição. Os exemplos vêm do Rio de Janeiro e
de Paris, e envolvem, entre outros, a espacia-
lidade de práticas sociais nos espaços públicos
da praia e dos estádios de futebol.

Ganha a cidade uma leitura rica, que contri-
bui para desvendá-la em sua complexa multi-
dimensionalidade. Ganham também a geogra-
fta e, naturalmente, os leitores.

Roberto Lobato Corrêa
Departamento de Geografia /UFRJ

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