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TitleQUESTIONÁRIO DE ESTRATÉGIAS DE COPING
TagsSelf-Improvement Portugal Stress (Biology) Coping (Psychology)
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Segundo Folkman e Lazarus (1988) o Ways of
Coping Questionnaire – que em Português se
chamaria Questionário de Modos de Lidar com
os Acontecimentos – foi inicialmente usado co-
mo um instrumento de investigação acerca dos
componentes e dos determinantes do modo como
os indivíduos lidam com os/reagem aos aconte-
cimentos. Ainda segundo eles, foi concebido
para identificar pensamentos e acções a que os
indivíduos recorriam para lidar com aconteci-
mentos stressantes específicos. É identificado
com a teoria transaccional de coping desenvol-
vida por Lazarus (1966).

Com o passar do tempo foram propostas pelo
autor inúmeras dimensões desta teoria, por
exemplo: duas dimensões, reavaliação defensiva
e acção directa; duas dimensões, acção directa
sobre o self ou o ambiente e processos intrapsí-
quicos; quatro dimensões, procura de informa-
ção, acção directa, inibição da acção e modos in-

trapsíquicos; até chegar à versão mais recente
com duas dimensões gerais de coping, coping fo-
cado no problema e coping focado nas emoções
(Edwards & O’Neil, 1998).

O questionário assume a seguinte definição de
coping: «esforços cognitivos e comportamentais
para responder a exigências específicas, internas
e/ou externas, que são avaliadas como exceden-
do os/ou estando nos limites dos recursos do in-
divíduo» (Folkman & Lazarus, 1988, p. 2). Se-
gundo os autores esta definição tem as seguintes
características: a) é orientada para o processo; b)
refere-se a gestão em vez de mestria; c) não faz
julgamentos a priori acerca da qualidade do pro-
cesso de coping; d) impõe uma distinção com
base no stress, entre coping e comportamentos
adaptativos automáticos.

Sendo orientado para o processo, refere-se ao
que as pessoas pensam ou fazem no momento
em situações específicas e não ao que as pessoas
fazem normalmente. Ou seja o coping não é um
traço de personalidade, estável que se aplica às
situações de vida em geral. Visto como um pro-
cesso implica dinâmicas e mudanças em função
de avaliações e reavaliações contínuas que são
função das relações entre o indivíduo e o meio.

É um processo de gestão das situações e não

491

Análise Psicológica (2001), 4 (XIX): 491-502

Estudo conservador de adaptação do
Ways of Coping Questionnairea uma
amostra e contexto portugueses

JOSÉ PAIS-RIBEIRO (*)
CARLA SANTOS (**)

(*) Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educa-
ção da Universidade do Porto.

(**) Metropolitano de Lisboa.

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um processo de domínio ou de mestria das situa-
ções. Gestão em vez de mestria implica que o
que está em jogo é o processo em vez dos objec-
tivos. Considerar coping como mestria implica-
ria que o esforço de coping teria de ser eficaz na
resolução do problema, caso contrário não teria
havido coping, ou este teria sido inadequado.
Vê-lo como gestão implica que mesmo que o
problema não tenha sido resolvido houve coping,
com impacto ou não na redução do stress rela-
cionado com a situação, e não a com a resolução
do problema.

A qualidade do coping não existe em absolu-
to. Ela só pode ser avaliada em função da situa-
ção. Ela pode ser bem adaptada num contexto e
não noutro.

Coping refere-se a actividades, orientadas pa-
ra a adaptação, que exigem algum esforço, e não
àquelas que se fazem automaticamente.

OS ESTUDOS INICIAIS

A versão inicial do Ways of Coping Question-
naire é da década de 70 do século XX (então
Ways of Coping Checklist). Os autores desenvol-
veram, então, com base na reflexão e da revisão
de literatura, 67 estratégias de coping, a que os
sujeitos respondiam «sim» ou «não», consoante
tinham ou não utilizado tal estratégia perante o
problema em avaliação. Numa segunda fase os
autores passaram de uma estratégia de constru-
ção do questionário baseada na teoria, para uma
estratégia empírica. Construíram um questioná-
rio de 66 itens com resposta ordinal de 4 posi-
ções, até chegarem à versão de 50 itens abordada
neste estudo.

Os itens do Ways of Copingforam classifica-
dos em duas grandes categorias de coping: foca-
do-no-problema e focado-nas-emoções (Folkman
& Lazarus, 1980). O coping focado-no-problema
refere-se aos esforços desencadeados para gerir
ou alterar a relação perturbadora da pessoa com
o ambiente, que é fonte de stress, enquanto que o
coping focado-nas-emoções refere-se aos esfor-
ços desencadeados pelo sujeito para regular
emoções stressantes.

O Ways of Coping Questionnaire, apresenta
66 estratégias (itens) de coping cognitivas e
comportamentais das 67 já contidas no Ways of
Coping Checklist. Por outro lado, enquanto que

no primeiro os sujeitos respondem a cada item
do checklistrelativo a um acontecimento de vida
stressante («life stress event») indicando «sim»
ou «não», no segundo, o formato de resposta foi
modificado, passando a ser uma escala ordinal
de 4 posições, permitindo aos respondentes pon-
tuar entre 0-3, a frequência com que usavam ca-
da uma das estratégias apontadas. Também, os
itens que foram considerados pelos seus autores
como redundantes ou pouco claros foram elimi-
nados ou repensados e vários itens, como «re-
zar» foram acrescentados, por sugestão dos pró-
prios respondentes.

Apesar desta classificação dos itens ter sido
inicialmente útil – coping focado-no-problema e
coping focado-nas-emoções –, falhou na expres-
são da riqueza e complexidade dos processos de
coping humanos. Para além disso, certas estraté-
gias de coping encaixam-se quer nas funções de
coping focadas-no-problemas, quer nas focadas-
nas-emoções. Este é, por exemplo, o caso da
procura de aconselhamento que serve as funções
focadas-no-problema, quando fornece informa-
ção concreta para ajudar a resolver um problema,
e simultaneamente, serve as funções focadas-
-nas-emoções se o processo de procurar aconse-
lhamento ajudar o indivíduo a sentir-se apoiado
emocionalmente.

Devido a inúmeras dificuldades encontradas
com a praticabilidade dos questionários os au-
tores recorreram a métodos empíricos para com-
pletar e identificar variedades de coping que
tinham desenvolvido com base na teoria. Com
base em vários estudos (e.g. Coyne, Aldwin, &
Lazarus, 1981; Folkman & Lazarus, 1985; Folk-
man, Lazarus, Gruen, & Delongis, 1986), alguns
deles (os dois referidos, por último) de revisão
do Ways of Coping Questionnaire, e após análise
factorial os autores adoptaram a subdivisão da
escala em oito sub-escalas de coping (Folkman
& Lazarus, 1986). Segundo a teoria de coping de
Lazarus e Folkman (Lazarus, 1992) a maior par-
te das pessoas recorre a cerca de oito estratégias
de coping em todos os acontecimentos de stress
(Quadro 1).

Cada escala ou forma de coping é tipificada e
avaliada por itens que os autores desenvolveram
para o efeito, grande parte deles, como se refe-
riu, já existentes na checklist original. Os itens
do questionário foram concebidos para serem
respondidos relativamente a um acontecimento

492

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MÉTODO

Participantes

A versão utilizada neste estudo foi passada a
uma população de 98 trabalhadoras por turnos
do sexo feminino, cuja participação foi voluntá-
ria, divididos por três grupos etários, em que
49% tinha menos de 30 anos, 14,3% entre 30 e
45 anos, e 36,7% mais de 45 anos; 77,6% eram
casadas ou viviam em união de facto; 39,8%
tinham 9 anos de ensino básico, 57,1% o secun-
dário e 3,1% um curso politécnico.

Material

Ways of Coping Questionnaire(Lazarus &
Folkman, 1988) na versão de 50 itens estudada
pelos autores. Trata-se de um questionário de au-
to-preenchimento que, segundo os autores nor-
malmente leva cerca de 10 minutos a responder.

Procedimento

A fase inicial consistiu na tradução das frases
que constituem estratégias de coping. Após a tra-
dução literal, e através das discussão entre espe-
cialistas chegou-se a uma versão de consenso.
De seguida verificou-se se o conteúdo da versão

do item resultante da tradução avaliava o cons-
truto (a estratégia de coping) que se propunha.
De salientar que os autores chamam particular
atenção para este aspecto, nomeadamente para a
importância da validade facial dos itens, de mo-
do a que as várias traduções tenham o mesmo
significado através das diversas culturas. Proce-
deu-se então à aplicação a um número reduzido
de pessoas com as características da população
alvo para verificar se elas entendiam o processo
de recolha de dados como era suposto.

Seguidamente procedeu-se à aplicação do
questionário e à inspecção da consistência inter-
na das dimensões originais.

Porque aceitámos a versão dos autores como
boa, e porque a confirmação da estrutura facto-
rial da escala não mostrava a estrutura original,
trabalhámos a distribuição de itens pelas di-
mensões propostas pelos autores. Assim, através
da inspecção da correlação item com o total da
dimensão a que pertence, identificámos os itens
a manter e os a retirar.

RESULTADOS

A inspecção da consistência interna e do con-
teúdo dos itens permitiu verificar que as altera-
ções a introduzir eram mínimas visando alcançar

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QUADRO 2
Sub-Escalas do Ways of Coping Questionnaire*: Comparação entre a escala original

e a escala utilizada

Sub-Escalas de Tipos de Coping Número de itens Alpha de Cronbach

Coping Confrontativo (6) 6 (0,70)0,52
Coping de Auto-Controlo (7) 7 (0,70)0,67
Procura de Suporte Social (6) 6 (0,76)0,79
Assumir a Responsabilidade (4) 3 (0,66)0,57
Resolução Planeada do Problema (6) 6 (0,68)0,76
Distanciamento (6) 5 (0,61)0,75
Fuga-Evitamento (8) 7 (0,72)0,67
Reavaliação Positiva (7) 7 (0,79)0,83

* Os valores entre parêntesis referem-se à escala original e os valores em bold à escala utilizada neste estudo.

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valores de consistência interna aceitáveis e idên-
ticas às dos autores.

O número de itens por sub-escala, e os coefi-
cientes de Alpha de Cronbach, tanto da escala
original como daquela que é gerada neste traba-
lho podem ser observados no Quadro 2.

A solução adoptada para a versão portuguesa
implicou a retirada de dois itens da versão ori-
ginal, o item 8 e o item 12, ficando o questioná-
rio com 48 itens. O Retirar dos dois itens per-
mitiu alcançar Alphas de Cronbach aceitáveis,
sem provocar alterações na validade de conteú-
do. Os Alphas de Cronbach das oito sub-escalas
caíram maioritariamente entre os 0,65 e os 0,80.
Duas escalas apresentam alfas abaixo de um
valor tecnicamente aceitável, como é o caso da
escala de coping «confrontativo» que exibe um
alfa de 0,52, e «assumir a responsabilidade»,
com um alfa de 0,57. Esta última no entanto,
porque tem somente três itens, pode ser conside-
rada como tendo uma consistência interna acei-
tável. Genericamente a consistência interna é
baixa. No manual os autores da escala também
referem o mesmo problema, afirmando que tal é
comum em escalas de coping.

Recorrendo ao método de pontuações relati-

vas verifica-se que as estratégias de coping a que
as pessoas recorrem mais são a procura de supor-
te social, seguida da resolução planeada de pro-
blemas. Seguem-se pela ordem descrita, auto-con-
trolo, distanciamento, reavaliação positiva, con-
frontativo, assumir a responsabilidade, e fuga-
-evitamento.

A correlação inter dimensões de coping é
exibida no Quadro 3.

As correlações são geralmente modestas o que
poderia sugerir que as dimensões são indepen-
dentes fundamentando assim a proposta teórica
dos autores.

Validade de construto

Começou-se por inspeccionar a validade con-
vergente-discriminante. A validade convergente
(correlação item total da escala a que pertence
corrigida para sobreposição) era modesta para a
maioria das escalas, com valores dominantes
entre 0,30-0,40. Foram excepção as dimensões,
procura de suporte social, resolução planeada de
problemas, reavaliação positiva, e distanciamen-
to que evidenciaram valores mais altos. A vali-
dade discriminante para grande parte dos itens

497

QUADRO 3
Coefecientes de Correlação entre as Sub-Escalas de Coping

Sub-Escalas 2 3 4 5 6 7 8

1- Confrontativo r(91)=0,47 r(92)=0,58 r(91)=0,51 r(92)=0,34 r(90)=0,20 r(93)=0,46 r(89)=0,37
p<0,0001 p<0,0001 p<0,0001 p<0,001 p<0,05 p<0,0001 p<0,0001

2- Auto-Controlo r(95)=0,54 r(94)=0,37 r(93)=0,58 r(92)=0,65 r(95)=0,30 r(91)=0,56
p<0,0001 p<0,0001 p<0,0001 p<0,0001 p<0,003 p<0,0001

3- Procura de Suporte r(94)=0,52 r(94)=0,44 r(93)=0,25 r(95)=0,42 r(92)=0,58
Social p<0,0001 p<0,0001 p<0,01 p<0,0001 p<0,0001

4- Assumir a r(93)=0,19 r(91)=0,26 r(95)=0,39 r(91)=0,53
Responsabilidade p- ns p<0,01 p<0,0001 p<0,0001

5- Resolução Planeada r(92)=0,28 r(94)=0,04 r(92)=0,39
do Problema p<0,007 p- ns p<0,0001

6- Distanciamento r(92)=0,21 r(89)=0,42
p<0,04 p<0,0001

7- Fuga-Evitamento r(92)=0,32
p<0,002

8- Reavaliação Positiva

1- Coping Confrontativo; 2. Coping de Auto-Controlo; 3. Procura de Suporte Social; 4. Assumir a Responsabilidade;
5. Resolução Planeada do Problema; 6. Distanciamento; 7. Fuga-Evitamento; 8. Reavaliação Positiva;
ns = resultado não significativo

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ANEXO

QUESTIONÁRIO DE ESTRATÉGIAS DE COPING

Por uns momentos concentre-se e pense na situação de maior stress que experienciou recentemente
na sua vida profissional. Por situação «stressante» entendemos qualquer situação que foi difícil ou
problemática para si, quer porque você se sentiu angustiada pelo facto daquela situação ter acon-
tecido, quer porque se esforçou consideravelmente para lidar com a mesma.

A seguir vai encontrar um conjunto de afirmações que se referem a várias estratégias utilizadas
para lidar com situações de stress. Pensando na forma como lidou com a situação de stress que
viveu, assinale a frequência com que utilizou cada uma das estratégias indicadas, de acordo com a
seguinte escala:

0 - Nunca usei
1 - Usei de alguma forma
2 - Usei algumas vezes
3 - Usei muitas vezes

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502

Descreva brevemente, a situação stressante em que pensou ao responder a este questionário, quem
estava envolvido, o que é que aconteceu e o que é que tornou a situação stressante. Esta descrição será
útil para a interpretação do questionário.

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MUITO OBRIGADO PELA SUA COLABORAÇÃO

Adaptação de C. Santos & J. Ribeiro (1998)

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